A ESCURIDÃO ILUMINADA

A ESCURIDÃO ILUMINADA

De uma forma geral, todos temos para conosco que, em campo nenhum, somos preconceituosos. E quando nos descobrimos sendo preconceituosos?

A psicologia é feliz ao relatar o processo de reflexão, ou seja, rapidamente arranjamos uma desculpa para maquiar este sentimento. Só não conseguimos maquiá-lo quando descobrimos sermos preconceituosos conosco mesmos. Mas como? Isto seria possível?

Eu, que já passei por isto, posso afirmar que sim. Há três anos, no dia 1 de novembro de 1997, ao fazer a destruição de uma granada de mão falhada em um exercício de campo que coordenava, houve o acionamento prematuro do explosivo e me acidentei gravemente.

De imediato recebi os primeiros socorros e removido. Aqueles que tem experiência com explosivos à princípio só não conseguiam responder uma coisa: - Como eu havia sobrevivido?

Do momento do acidente em diante, eu havia ficado cego. Sim cego. A palavra cego tem um significado pejorativo muito forte, significa dependênte, inexato, incapaz, inválido.

No meio do turbilhão que este problema me arremessou, aceitei sem questionar, pois a imagem que sempre tive dos cegos era dos pedintes em frente das igrejas e dos ambulantes quase esmolando para comprar-llhes loterias e desentupidores de fogões.

Por que logo comigo? Com amplos conhecimentos e experiência com explosivos, um dos Oficiais com mais cursos de especializações, Sem falsa modéstia, um dos Oficiais mais bem conceituados da minha turma, Por que comigo?

Quando estas lamentações começaram a fazer parte do meu dia à dia, foi que percebi que estava sentindo pena de mim e, também, sendo preconceituoso comigo mesmo.

Para uma pessoa que sempre procurou seus limites físicos e não os achou, esta nova experiência é amedrontadora. Para uma pessoa que era Pára-quedista, alpinista, mergulhador, que já lidou com guerrilheiros na África, achou-se sentindo o maior medo de sua vida, quando, com uma professora, saiu andando sozinho com uma bengala pelo centro de Belo Horizonte.

A partir daí, comecei a Ter contato com outros cegos no Instituto São Rafael e percebi que o cego não é aquele inválido que eu jurava ser. Aquele cego pedinte e o ambulante, são exatamente iguais a milhões de brasileiros que não tiveram a oportunidade da Educação formal, só que por sua característica física marcante, isto os estigmatizou.

Conheci cegos de todas as profissões: massagistas, operadores de tele-marketing, professores, datilógrafos, administradores, advogados, analistas de sistemas, doutores em economia, professores universitários e um tanto que seria difícil enumerar.

Eu que à princípio, quando enxergava, nunca havia achado meus limites e que achava estar definitivamente incapaz, vi ante meus olhos cegos, um novo descortinar de desafios.

Estou de novo procurando meus limites, e a cada dia que passa, sinto que eles estão mais longes. É lógico que não quero e posso voltar a ser o pára-quedista que era, todavia fui dotado de uma pequena inteligência e esta, com certeza, é muito mais forte que nossos músculos.

Esta caminhada que hora inicio, redescobrindo o prazer de viver, não seria possível sem o incansável apoio de minha amada esposa, minha querida mãe, meu companheiro irmão, minha amiga e tia Amália, e a compreesão e amor de meus filhos. Seria leviano de minha parte se quisesse enumerar todas as pessoas que me ajudaram, acabaria sendo injusto se me esquecesse de alguém, de forma que quero dizer à todos muito obrigado.

Deus sabe que nunca perdi, e nunca perderei, a esperança de um dia voltar a enxergar para ver meus entes queridos e, principalmente, meus filhos. Não esperarei sentado pelo destino, eu o farei!

Rogério Alberto Del RIo Hamacek - Acadêmico Adm